Eles são bem diferentes. Luiza Marques, de 14 anos, adora bisbilhotar. Antonio Pinheiro Pedro, de 47, lê sobre legislação. Cláudio Ferreira, de 27, tem 3 milhões de amigos. Marlene Silveira, com mais de 60 anos, troca receitas. Victor Belmonte, de 8, fica ligado em esportes... Perfis variados, mas com um ponto em comum: todos estão no onipresente Orkut.
Aos quatro anos, completados na semana passada, a rede social do Google consolida sua soberania no País: nada menos do que 70% dos internautas, de todas as idades, acessam o site freqüentemente. De novidade para jovens ligados em tecnologia, o Orkut tornou-se hoje “o” ponto de encontro na internet brasileira, que literalmente reúne pessoas de 8 a 80 anos.
“Converso com amigos da escola e vejo comunidades sobre esporte”, diz o estudante Victor Belmonte, de 8 anos. “Eu falo com meus netos, minha filha e minhas amigas. E pego receitas em comunidades sobre culinária”, conta a aposentada Marlene Silveira, que não revela a idade por nada. “Isso é coisa que se pergunte a uma mulher?”
Para marcar o aniversário, o serviço passa por uma mutação frenética: já alterou o layout, adiciona ferramentas como quem troca de roupa e, em breve, permitirá até instalar aplicativos, como o MSN. Do Orkut original, de 2004, pouca coisa deve sobrar. Só a indefectível cor azul-bebê. Essa fica.
No Brasil, a despeito das novidades, a rede social continua a ter a mesma função primordial: falar com os amigos. “O scrapbook é a ferramenta mais utilizada do site”, conta o gerente do Orkut, o brasileiro Eduardo Thuller. Só que agora, depois de quatro anos, esse fenômeno ganhou proporções maiores. “As pessoas deixaram de enviar e-mails. Preferem mandar scrap, que é mais informal”, explica o pesquisador do Ibope Inteligência José Calazans.
O advogado Antonio Pinheiro Pedro, de 47 anos, por exemplo, deixa a formalidade apenas para o ambiente de trabalho. “Escrever um e-mail é uma atividade que leva tempo, pois se parece mais com uma carta”, diz. “Um scrap é mais rápido, curto e objetivo. Por causa disso, tenho mais contato pela web com os amigos que estão no Orkut”, diz ele, que entra no site várias vezes ao dia e gosta de acompanhar grupos sobre sustentabilidade ambiental.
Outra finalidade muito comum hoje no Orkut – e muitas vezes não assumida por quem pratica – é xeretar a vida alheia. “As pessoas gostam de acompanhar os outros a distância, sem ter de telefonar ou mandar e-mail”, diz a pesquisadora da PUC de Pelotas Raquel Recuero. Segundo ela, a possibilidade de bisbilhotar é o que mantém muitos usuários no site. “O Orkut não é mais novidade. As pessoas já sabem como funciona, encontraram os amigos que queriam e formaram a sua rede. O que resta? Xeretar.”
A estudante Luiza Marques, de 14 anos, está no grupo que, segundo o Ibope, mais tempo fica no Orkut: a de meninas adolescentes. Agora nas férias, fica o dia inteiro conectada. Para quê? Falar com os amigos e, lógico, bisbilhotar. “Entro no álbum de fotos e no scrapbook dos amigos para me atualizar. Quando acontece algo com um amigo da escola, todo mundo fica sabendo na hora.”
E a privacidade, como fica? “Deveria me preocupar mais com isso, mas não ligo”, diz Luiza. “Só coloquei aquele bloqueio nas fotos e nos scraps (que permitem apenas aos amigos os acessarem) porque a minha mãe pediu. Mas, quando preciso dizer a alguém alguma coisa secreta, escrevo um depoimento ou uso o MSN.”
Mas há quem se incomode. Depois de descobrir que “pessoas indesejadas” entravam direto no seu perfil, a tradutora Daniela Reyes, de 24 anos, tomou uma decisão drástica: no meio do ano passado deletou sua conta. “E não vou voltar mais. Cansei de ficar tão exposta”, diz ela, que cometeu “orkuticídio” pela segunda vez. Na primeira estava enjoada do site.
Outro “sucesso” no Orkut, que segundo o Ibope têm 15 milhões de usuários brasileiros, são as comunidades, algumas com mais de quatro milhões de usuários. Mas sucesso entre “aspas” mesmo. “Uma minoria realmente troca idéias. E tem muito spam. As pessoas só entram para mostrar que gostam do assunto”, conta o analista de sistemas Cláudio Ferreira, de 27 anos, dono da comunidade “Eu amo fim de semana”, com mais de 3 milhões de membros.
Nesta edição, o Link mergulha no mundo do Orkut, detalha as novas funções e traz novidades sobre a “reforma” do site. Fonte: Link
